Teledramaturgia - A Vida da Gente

Enredo apaixonante, sensível, com personagens profundos e verdadeiros e um pano-de-fundo mais que atual: as novas relações familiares.

Olhos na realidade e pés fora do chão - Um perfil do poeta Nelson Capucho

“A poesia parece uma inclinação. Todas as pessoas que eu conheço que escrevem poesia têm uma sensibilidade. Parece que o cara nasce poeta”, diz ele.

Poesia concreta - Intervenções urbanas

Muros, faixas de pedestre, pontes, edifícios, construções... Tudo se torna tela.

Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Calados por Cat Power

Flores, melancolia e minimalismo no show da cantora    
                                                                      
Um pouco de Janis Joplin com um quê de Aretha Franklin e Bob Dylan, misturados com uma pegada minimalista, melancolia, jazz, solidão e uma voz extraordinária... Isso foi o que foi ouvido e sentido durante a Virada Cultural Paulista no show da Cat Power, ou, se preferir, Chan Marshall, verdadeiro nome da cantora e compositora estadunidense que foi definida pelo The New York times em 2006 como indie-folk rocker.

Cat Power já teve problemas com álcool e drogas, o que acabou culminando em uma depressão profunda e até pensamentos suicidas no final da década de 90. “Eu perguntei a Deus... eu disse: estou cansada, eu não posso fazer isso. Eu estava pedindo a ele que simplesmente me levasse”, disse ela a uma entrevista ao The New York Times, em 2006 . Ela também era extremamente tímida e tinha uma espécie de pânico de palco, o que acabava fazendo com que fizesse os show quase que fora do corpo. Nessa fase, chegou a ponto de decidir abandonar a carreira musical completamente, mas mudou de ideia depois de uma noite de pesadelos onde surgiram as letras de seu álbum Moon Pix (1998), que foi muito bem recebido pela crítica. Nada disso seria relevante se muito de suas músicas não refletissem bastante uma sensação de não pertencimento e procura constante de algo que talvez não exista – Losing the star without a Sky, como diz a letra de Metal Heart.

A espera por ela começou cedo. O show estava marcado para às 17h, e à 13h da tarde já havia pessoas sentadas em frente ao palco, coladas na grade, sedentas por aquele vocal rouco e doloridamente belo. Via-se de longe pessoas escrevendo cartas, cartazes, contando fatos e desfilando sutilmente com camisetas com a foto dela. Mas o que se sentia de mais forte era uma ansiedade gritante e muda que só sabia esperar pela voz.

Cat Power canta de um jeito que ao mesmo tempo que impressiona, encanta silenciosamente pelos gestos lentos e arrastados, pelos olhos fechados e pelo chá, que, na pausa entre uma música e outra, ela se abaixa para tomar. Ela, que já foi comparada a um monge em autoflagelo medieval pelo jornal O Globo por tamanha hermeticidade no palco, dessa vez estava perceptivelmente mais aberta e solta, arriscando até mesmo algumas dancinhas e sorrindo sem parar.

Assim que entrou, o Parque da Cidade de São José dos Campos - já banhado pelo pôr do sol - que antes ainda tinha alguns metros de grama visível, já estava cheio de gente. Alguns, fãs fervorosos, desses à moda antiga, que já tinham acompanhado o show do dia anterior, também pela Virada Cultural, em Jundiaí. Outros, estavam ali ouvindo-a pela primeira vez, mas igualmente àqueles velhos conhecedores, colocaram-se em estado de êxito ao escutar as primeiras notas. Tudo o que se pôde perceber quando Cat Power entrou no palco foi um minuto de excitação geral. O show começou com “Don’t Explain”, faixa de seu último disco, Jukebox (2008) – uma música extremamente dolorida que começa dizendo: Hush now, don’t explain/You’re the cause of all my trouble and pain/ There is nothing within me now to gain.

Tirando a manifestação da plateia nas pausas entre as músicas, nas quais se ouvia frases em inglês como “You’re my Bob Dylan” , o silêncio era o que mais chamava atenção depois daquela voz triste sussurrando, gritando, cantando músicas como a famosa “The Greatest”, trilha sonora do filme Um beijo Roubado (My Blueberry Nights), “Ramblin (Wo)man” e “Sea of love”. Cat Power agradecia cada silêncio e cada grito, principalmente os que mencionavam Bob Dylan – ídolo maior da cantora e inspiração de uma de suas composições, também de se último disco: Song to Bobby - Giving you my heart/ Was my plan/ I wish I could tell you.

Olhando em volta se via apenas um monte de olhos desconhecidos, anônimos, estrangeiros, mas olhos encantados, envoltos na transcendência do piano, dos solos de guitarra e daquela voz de adjetivo indizível.

A verdade é que tem muito de Chan Marshal em Cat Power. Mesmo no palco ela era extremamente humana e não tinha quase nada daquela idealização romântica que as grandes cantoras têm.

Disse muitas vezes “I love you, Brasil” e “obrigada”, disse também que todos estavam muito longe e que era pra chegarem mais perto - ela está acostumada a fazer shows em que o caráter intimista transcende a música e deixa o público bem mais próximo dela – proximidade impossível devido à quantidade de seguranças e à grade que mantinha a grande distância obrigatória. Mas ao final do show, quando Chan joga flores e distribui set lists, essa grade se fez invisível. Todo mundo deu um jeito. Eu inclusive. Peguei uma flor e um pedaço do set list, que por sorte era exatamente o pedaço que tinha a minha música preferida: “Metal Heart”. Depois disso, ela ainda tocou um pouco de bateria, com os cabelos suados e sorrindo bastante. Feliz e leve – finalmente. As pessoas sorriam em resposta, em uma espécie de comunicação mútua.

Há muito de Chan Marshal em Cat Power e quando ela saiu do palco o silêncio voltou a ser barulho e tudo o que consegui pensar, ainda atônita, foi: Chan, you’re my Bob Dylan. 


(por Layse Moraes)

domingo, 20 de novembro de 2011

O show de Oswaldo Montenegro - Porque as duas metades são amor

Desconforto, encantamento e naturalidade em Oswaldo Montenegro

Um vassalo do trovadorismo, um homem fazendo serenata para um amor que vez em quando existe e dói, vez em quando nem amor é mais. Oswaldo parece viver dentro de um quadro. Respira uma poesia tão inerente que torna natural o encantamento aos olhos de quem o enxerga. Artista múltiplo, fez trilhas para teatro, balé, cinema, televisão, foi autor de musicais - entre eles Léo o Bia, que recentemente se tornou um longa metragem com direção e roteiro do próprio Oswaldo – e já escreveu um livro infantil – O Vale Encantado, além de ter composições que foram gravadas por vários ícones da música brasileira, entre eles Ney Matogrosso e Gonzaguinha. Mas na noite de um dos shows da turnê Canções de Amor foi apenas Oswaldo. Sem nem preocupação com sobrenome. 

Contrariando o padrão dos artistas consagrados, Oswaldo estava no hall do teatro enquanto o público entrava.  A presença do músico causou até certo desconforto: o que fazer frente àquela figura que, teoricamente, deveria ser vista apenas do palco?

Aparentemente solitária por se iniciar apenas com Oswaldo e um violão no palco, a demonstração trovadoresca vai se desenrolando e somando mais instrumentos. Depois de algumas músicas e bastante conversa com o público, como se todos que ali estavam fossem velhos conhecidos, Oswaldo chama ao Palco a flautista Madalena Sales enquanto desce as escadas do teatro e a acompanha com o violão em meio à plateia. A explicação? Queria poder ter o prazer de assistir a flautista do nosso lugar, como mero espectador e amante da canção. Oswaldo faz poesia nos gestos. Um dos diferenciais dessa turnê é a multiplicação dos instrumentos, dada por um telão que se abre ao fundo do palco e que mostra Oswaldo e Madalena tocando teclado, o que faz com que os sons ao vivo se misturem com os sons gravados e seja formado, por mais contraditório que isso pareça ser, um quarteto de duas pessoas.

 No show, percebe-se Oswaldo no seu mais íntimo por meio do som e da poesia. Consegue-se pegar com delicadeza cada segundo das canções de amor. “Minha carreira não tem fases, tem faces”, reforça ele. A apresentação traz músicas inéditas e outras antigas, mas com arranjos diferentes dos originais. É o que acontece com “Bandolins”, música lançada no “Festival 79” da extinta TV Tupi, que na época era muito mais forte, tanto em arranjo quanto no vocal, e que agora se desenrola de outra canção – "Estrelas" – e reaparece mais doce e muito mais leve, sem a carga de subversão quase obrigatória que possuía na década de 70. Atenção também seja dada à música “Sempre não é todo dia”, que no álbum Canções de Amor conta com a participação especial de Zélia Duncan e já se inicia melancólica na melodia e na letra: “Eu hoje acordei tão só, mas só do que eu merecia.” E conclui ao final: “Eu acho que será pra sempre, mas sempre não é todo dia.”

Após se despedir, Oswaldo volta ao palco e, dedilhando baixinho o violão, recita a famosa poesia Metade. Depois disso, apenas deixa ecoando o resumo de tudo o que quis dizer com as canções que havia tocado: “Porque metade de mim é amor e a outra metade também”. 

(por Layse Moraes)