Teledramaturgia - A Vida da Gente

Enredo apaixonante, sensível, com personagens profundos e verdadeiros e um pano-de-fundo mais que atual: as novas relações familiares.

Olhos na realidade e pés fora do chão - Um perfil do poeta Nelson Capucho

“A poesia parece uma inclinação. Todas as pessoas que eu conheço que escrevem poesia têm uma sensibilidade. Parece que o cara nasce poeta”, diz ele.

Poesia concreta - Intervenções urbanas

Muros, faixas de pedestre, pontes, edifícios, construções... Tudo se torna tela.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Crítica: "AMANHECER - PARTE 1" - Só mesmo sendo fã... e olhe lá!

“Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”. Estes versos de Caetano Veloso expressam bem a impressão que se tem de Amanhecer – Parte 1 (Breaking Dawn – Part 1, Estados Unidos, 2011) quando já não se é, de antemão, um  fervoroso apaixonado pela Saga Crepúsculo. Stephenie Meyer e Melissa Rosenberg, autora original e roteirista da série, estragam o resto de poesia que ainda havia entre Edward (Robert Pattinson, Água para Elefantes) e Bella (Kristen Stewart, Corações Perdidos) e transformam os acontecimentos derradeiros do emblemático par em um espetáculo de horrores digno de Jogos Mortais ou Pânico 4.

O tão sonhado casamento de Bella e Edward ocorre em clima de romance e expectativa, em meio a convidados que reúnem vampiros, humanos e lobisomens – nada a se estranhar para quem já conhece as características demarcadas da saga. A pedido de Bella, Edward adia a transformação da esposa em sanguessuga e consuma o casamento com ela ainda humana. O que deveria ser apenas a última prova de amor antes da entrega total, porém, gera consequências terríveis: Bella fica grávida, e a gestação do feto, um híbrido entre humano e vampiro, deteriora seriamente a saúde da heroína, colocando-a em risco de vida. Para piorar, a tribo dos lobisomens acredita que o herdeiro dos Cullen seria uma ameaça à comunidade de Forks, por que decidem liquidar com Bella e o bebê. Entra novamente em cena o apaixonado Jacob (Taylor Lautner, Sem Saída), que, disposto a impedir que Bella seja assassinada, volta-se contra o próprio bando em nome de seu amor por ela.

A produção se conduz de forma digna nas sequências iniciais, do enlace entre os jovens protagonistas à viagem de lua-de-mel, em uma praia afastada e fictícia do Rio de Janeiro – com direito, inclusive, à participação de atores cariocas falando português. A sequência em que Bella e Edward fazem amor pela primeira vez surpreende tanto pela delicadeza como pelo bom gosto, subvertendo o histórico da franquia. Mesmo com os atores seminus, há pouco espaço para a sensualidade, minimamente insinuada, enaltecendo mais o tom romântico, ansiado não só pelos fãs incondicionais do casal, mas por qualquer cinéfilo que se agrade de cenas do gênero. Uma lição do pouco conhecido Bill Condon (Dreamgirls – Em Busca de um Sonho) para diversos diretores mais experientes e conceituados de como se fazer uma cena de amor sem apelar, além de condizer totalmente com o público juvenil a que o filme se dirige.

Infelizmente, a partir daí, tudo vem abaixo. Ao contrário do que poderia (e deveria) ser naturalmente, a notícia da gravidez de Bella substitui a felicidade conjugal por uma aura de morbidez e sofrimento sem fim que perduram até o final da primeira parte de Amanhecer. Conforme a gestação avança, Bella vê sua saúde e aspecto físico se deteriorarem de forma horripilante, tornando-a quase cadavérica. A narrativa e o mau gosto atingem seu clímax (simultaneamente) no parto da pequena Renesmee, cuja presença exagerada de sangue chega a lembrar aqueles filmes de terror macabros e trashes dos anos 80.

Apesar do fiasco quase total, Amanhecer ainda se destaca por algumas cenas de notável poesia, como quando Jacob, disposto a matar Renesmee ao crer que Bella morreu por causa dela, acaba literalmente prostrado ao ter uma espécie de insight – denominado imprinting no contexto da história – em que descobre que a pequena será o amor de sua vida. O texto em off, poético e inspirado, é como um oásis dentro daquele deserto grotesco.

As interpretações não trazem novidades: Kristen Stewart segue abusando dos suspiros e gemidos desfalecentes que marcaram Bella Swan, Robert Pattinson mantém a cara de paisagem de seu Edward Cullen, Taylor Lautner é um dos poucos que se salvam mesmo com seu Jacob cada vez mais coadjuvante. A direção não acumula muitos méritos, mas entre eles está o de eliminar a estética escura e propositalmente dark que predominou nos episódios anteriores. O que, aliás, foi salutar, do contrário tornaria insuportável assistir ao filme.

Amanhecer revela-se o equívoco máximo de uma série que, tola e sem pé nem cabeça, por si só já se mostrava equivocada. Aos que já se incomodaram com as excentricidades, bobagens e exageros de Crepúsculo, Lua Nova e cia., é a chance de sair do cinema com vontade de nunca mais tornar a ver a saga, nem pela mais mórbida curiosidade. Aos apaixonados histéricos pelo enredo de Stephenie Meyer, resta ignorar os defeitos da produção e amá-la com a mesma cega devoção dedicada aos outros episódios.

(por Felipe Brandão)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ballet - A arte que alcança uma nova classe

A Dança é uma das expressões artísticas mais apreciadas e praticadas em todo o mundo. Arte que se divide em diversos estilos e atraí várias idades, tem o balé como modalidade precursora, que se iniciou no século XV, e desde então tem evoluído, tanto em seus passos quanto no público que o pratica.

Dança que se originou nas cortes da Itália, elite do país, o balé, ou ballet em francês, é um estilo de dança clássico e equilibrado. Segundo profissionais da área, a modalidade exige muita técnica e prática, com ensaios periódicos e exaustivos.

Assim como seu começou, nas camadas nobres da Europa, o ballet foi se espalhando pelos outros países, sempre atingindo, em sua maioria as classes mais altas da sociedade. “O balé, principalmente a dança clássica, até o final da década dos anos 80 era exclusiva da classe média alta”, conta o secretário de Cultura de Londrina e bailarino, Leonardo Ramos.

O secretário e bailarino de muita experiência, disse que atualmente o perfil dos bailarinos mudou. “As pessoas da classe alta não possuem mais interesse pela arte do balé”, esclareceu. Para Ramos, essa nova fase que o balé passa, se dá devido aos princípios que o mundo atual tem priorizado. “A classe média e alta passa por essa realidade devido à bitolação em que se encontra, pois, se tornou refém do mercado. As crianças deixaram até a prática de esportes, para dar lugar aos cursos de línguas e informática.”

Mesmo que essa fase reflita de forma negativa, já que os jovens perdem o desejo pela arte, que para Ramos, é fundamental na formação do senso crítico dos cidadãos. Por outro lado, a nova realidade proporciona uma inovação para o balé em todo o Brasil, que se abre, então, para as classes menos favorecidas.

A novidade é consequência, segundo o secretário, da mobilização dos professores da arte, que para não deixá-la morrer começaram a promover ações socioculturais para atender, através da dança, as classes mais baixas.

Para exemplificar essa nova etapa vivida pelo balé, Ramos sita o exemplo da escola de balé de Londrina, “Ballet de Londrina”.
“Atualmente, quase 100% dos que frequentam o ballet clássico de Londrina são das classes menos favorecidas”, disse Ramos. Entre as ações desenvolvidas responsáveis por mudar esse quadro, está as bolsas de estudos e os descontos na mensalidade, que incentivam crianças e adolescentes a buscarem o sonho antes inalcançável que se tornou real.

Essa nova realidade e a iniciativa dos profissionais e produtores da cultura do balé, gerou novas oportunidade para a população da classe baixa e fez com que essa linda arte não fosse esquecida e extinguida pela ânsia da vida capitalista. “As pessoas menos favorecidas começam a exercer e procurar a dança, porque foi criado uma oportunidade, então, eles vão em busca dos seus sonhos e do que é direito deles como cidadãos.”

O resultado de tudo isso são jovens de lugares carentes e que de situações muitas vezes de risco, encontrando na arte um nova oportunidade para ser feliz. “A classe social não determina o desinteresse e a falta de conhecimento da cultura, porém, é a falta de oportunidade que as impede de desfrutar o inalcançável”, completa Ramos.

(por Mayara Teles)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Filme "Amarelo Manga": Um retrato do Brasil


O filme Amarelo Manga (2003), do diretor Cláudio Assis, é interessante para quem gosta de documentários ou de críticas em relação à atual sociedade. com uma linguagem atual, a obra não tem prazo de validade. Amarelo Manga nos mostra um reflexo do Brasil pobre, marginalizado, onde não existem mocinhos nem vilões, em que o povo não é tratado com tiranias e condescendências. O filme aborda também temas como homossexualidade, necrofilia e adultério de um modo menos sombrio e menos estereotipado do que estamos acostumados a ver nas películas com estas temáticas.

O filme começa com Ligia, uma mulher mal humorada, dona de um bar, dizendo que "o ser humano é estômago e sexo. O resto é o resto: comida, cerveja, amigos. Tudo coisas. Apenas os cães são fiéis". E assim desenrola uma trama com vários encontros e desencontros amorosos na periferia de Recife.

Ele nos revela personagens como o açougueiro Wellington: machista, infiel e casado com Kika, uma protestante devota. O traficante Isaac que tem uma obsessão por pessoas mortas. A dona do bar, Lígia, que sofre assédio de todos os clientes, e o travesti e cozinheiro Dunga, que tem uma paixão doentia pelo açougueiro.

O cenário da trama é a pensão onde todos os personagens moram - o que nos faz lembrar do clássico do realismo-naturalismo brasileiro, "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo. A violência no filme não chega a ser assustadora nem mesmo nos provoca algum tipo de emoção mais forte, mas incomoda porque os personagens são brasileiros. E nós, espectadores, também somos brasileiros. Um dos personagens, o tempo todo repete a frase: amarelo é cor de ouro, cor de alegria e energia, mas aqui, amarelo é cor da meleca que sai no nariz, dos dentes apodrecidos, da podridão das feridas. Amarelo velho, desbotado e doente.

O filme é o retrato mais verdadeiro e preciso do Brasil. Mas vai além disso: é um retrato do lado obscuro do ser humano. Meio clandestino, meio autêntico, meio podre, meio alma e meio ilusão. Neste filme, as máscaras são pouco a pouco retiradas. E, saiba, isso vai lhe incomodar. 

Assista ao trailer:

(por Fernanda Frigeri)

Filme "Mera Coincidência" - Na Casa Branca, nem tudo é o que parece

O filme Mera Coincidência é baseado no livro “American Hero” de Larry Beinhart. Dirigido por Barry Levinson e estrelado por Dustin Hoffman e Robert de Niro, é uma ficção que traz a história de uma disputa eleitoral nos Estado Unidos, em que o atual presidente é o favorito para a reeleição. Nas vésperas do pleito, surge um escândalo sexual envolvendo o presidente e uma amante, o que poderia mudar esse quadro. Isso acaba acarretando no posicionamento da assessoria, que logo pensa em algo para  abafar essa  situação.

Ames, sua assessora, entra em contato com um grande profissional de marketing, Conrad Bream (Robert De Niro), para lhe ajudar na missão. Depois de pensarem muito, chegaram a uma conclusão, a solução seria  criar um assunto no qual desviassem a atenção da mídia e da população, e escondessem o escândalo.

O próximo passo seria o planejamento de um acontecimento importante. Depois de algumas idéias, surge a de criar uma guerra contra a Albânia, mesmo que nenhum albanês estivesse em clima hostil com algum americano, ou coisa parecida. Para produzir esta grande mentira, os assessores chamam  produtor de Hollywood, Stanley Moss, interpretado por Dustin Hoffman.

O argumento utilizado para a suposta guerra na Albânia foi o de que o povo queria liberdade. Apesar de o país negar a situação surpreendente, o Presidente disse que resolveria tudo da melhor forma, pedindo calma a todos.

Os profissionais usam os mais variados recursos cinematográficos para dar mais realidade às encenações. As gravações tinham apelo emocional e patriótico.

Um presidiário (interpretado por Woody Harrelson)  condenado por estuprar uma freira é contratado para fazer o papel do soldado herói. Ele morre e então encena-se um enterro com direitos a honras militares para causar mais emoção e  veracidade.

Uma das cenas notáveis e mais comentadas do filme foi gravada em um estúdio com uma moça americana, interpretando uma albanesa, correndo desesperada, como se fosse uma refugiada de guerra. Depois os produtores editam as imagens, mostrando o que faz  lembrar um cenário de guerra, com prédios em ruínas, lugares abandonados, amontoados de escombros e outras imagens chocantes.

O marqueteiro, personagem de Robert De Niro, afirma que o que a televisão transmite é verdadeiro, mesmo sabendo que ele é quem idealiza as informações mentirosas. É aí que entra a discussão que o filme cria, o que é realidade e o que a mídia cria afirmando ser verídico; a manipulação na mente das pessoas deixando-as cegas diante dos fatos.
Além de conseguir desviar a atenção da população, a falsa guerra ajuda a promover politicamente o presidente norte americano  que passava a imagem de um  governante  pacificador.

 Por mais que as dificuldades vão surgindo o alvo é desviar a atenção de todos, e preservar a Casa Branca dos possíveis abalos. Dessa forma, cada acontecimento que pareça uma ameaça é contornado pelos personagens com  mais mentiras sustentadas como verdade.
No fim, surpreendentemente o  produtor percebe que a guerra falsária foi a melhor produção de sua vida e o que ele quer são créditos, não está interessado em um bom cargo público ou dinheiro, mas em reconhecimento pela sua criação. Depois morre misteriosamente.

Mera coincidência, que tem apenas 93 minutos, foi produzido e lançado em 1997.

(por Areuza Oliveira)

domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre o deserto de Almas - Conto de Caio F. ganha versão teatral

Uma história de identificação e afetividade. De amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois.


“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Esse é um dos trechos iniciais do conto “Aqueles Dois”, presente no livro Morangos Mofados, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996). Essa é também uma das falas de Raul ou Saul – não importa, os atores deixam claro – na peça “Aqueles Dois”, encenada pela Cia Luna Lunera, de Belo Horizonte.

A peça é dirigida por Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati, os quatro primeiro são também os atores em cena.  A montagem de “Aqueles Dois” ganhou vários prêmios, entre eles o Prêmio Shell-SP de melhor iluminação (2008) além de também ter sido indicado à categoria de melhor direção e melhor cenário. Também participou do circuito Palco Giratório, do SESC, e foi o espetáculo eleito como o melhor de 2008 pelo Guia da Folha de São Paulo.


O enredo é simples, mas traz consigo uma grande carga de preconceito e crítica a mediocridade humana, ao mesmo tempo em que carrega também um encantamento, uma coisa meio happy ending, que Caio Fernando Abreu gostava tanto. “Aqueles Dois” é um recorte de tempo e espaço nas vidas de Raul e Saul. Ambos começam a trabalhar em uma repartição pública, que funciona como uma espécie de metáfora abrangente para tudo o que sufoca e reprime, e logo que se conhecem já se reconhecem de uma forma mais profunda. Primeiro pelo nome Raul e Saul – quando se lê invertido os dois nomes se tornam Luar e Luas - depois pela enorme solidão que os assombrava naquela cidade, onde todos tinham vindo de todas as direções. E a peça se desenrola em torno disso: um deserto de almas onde duas almas se identificam desde o primeiro minuto do primeiro segundo. No entanto, a tensão se encontra em uma questão: a relação dos dois acaba despertando um incômodo geral na repartição pública.

A peça é a representação exata do conto. E o adjetivo “exata” não quer dizer que ela não extrapole e transcenda, muito pelo contrário: ganha exatamente por aí: pelo ato de extrapolar o texto, transcender o enredo.

O desenvolvimento tem um ritmo único - talvez pela ótima sacada de transformar aqueles dois em aqueles quatro sem deixar de ser aqueles dois, talvez por ser “interrompida” em lapsos de realidade, como quando os quatro atores, nus, se deitam no chão e discutem para quem a peça será dedicada naquela noite - Caio sempre dedicava seus textos a alguém.
Como é dito pela própria Cia Luna Lunera em um encarte que é dado assim que se entra no espetáculo: “Vadiamos com Caio. Cinema, Audrey, Shirley, Gene Kelly, Almodóvar, trilhas, Oscar e sua arquitetura, Van Gogh...“.  É realmente uma grande mistura. De personagens - Raul às vezes é Saul e Saul às vezes se torna Raul - de trilhas sonoras - Cazuza, Bebel, Ângela Rô Rô, o tango El día que me quieras, o bolero Tu me acostumbraste, Carlos Gardel - de cartas de Caio, contos, crônicas...

No livro Morangos Mofados, logo abaixo ao título do conto está escrito: “Uma história de aparente mediocridade e repressão”. E a peça é isso. Mas não é apenas isso. É uma história de identificação e afetividade. De amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois. Nada falta para a construção da atmosfera de Raul e Saul. O cenário é propositalmente simples e móvel, vez em quando é o quarto de um ou de outro, vez em quando é a repartição. A peça também tem um toque de humor e leveza que o conto não traz, mas que só somou à naturalidade das relações representadas.

A atuação dos quatro atores é tão natural que às vezes me perguntava se eles estavam improvisando, falando de pura vontade, puro sentimento, ou se aquilo era mesmo parte do texto. Ainda não obtive essa resposta.

Ao fim do espetáculo, em que é dito o último trecho do conto do Caio (“Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”), a minha reação foi um sorriso sufocante. Sorriso, por ver um conto tão escancaradamente literário sendo representado de maneira brilhante e bem feita, e sufocante, por perceber a sutileza da mediocridade e a tamanha profundidade e complexidade que o olhar limitado e repressor esconde.

Voltei pra casa amando Raul e Saul, como tantas vezes eu amei em texto. E cantando baixinho: Tu me acostumbraste a todas esas cosas Y tu me enseñaste, que son maravillosas...

(por Layse Moraes)

Filme "Água para elefantes" - Quando o amor (não) acontece

Assistir a Água para Elefantes (Water for Elephants, Estados Unidos, 2011) pode ser uma experiência um tanto frustrante. A adaptação do diretor Francis Lawrence (Constantine, Eu Sou a Lenda) para o best seller de Sara Gruen (P.S.: Eu Te Amo) não é de todo ruim, mas deixa a impressão de que poderia ter sido bem melhor do que foi.

O enredo, ambientado na Grande Depressão norteamericana (década de 1930), gira em torno do jovem Jacob Jankowski (Robert Pattinson, Saga Crepúsculo), estudante de veterinária que abandona o curso às vésperas de concluí-lo, em decorrência da trágica morte de seus pais. Afogado em dívidas e sem herança, Jacob vai parar no circo dos Irmãos Benzini, onde é contratado pelo proprietário, August (Christoph Waltz, Bastardos Inglórios), como supervisor dos animais.


Jacob tem desavenças com August quanto ao tratamento dos bichos, em especial de Rosie, uma elefanta considerada intreinável e a quem August busca subjugar pela violência. Em meio a isso, o veterinário apaixona-se pela atraente Marlena (Reese Wintherspoon, Johnny & June), a voluntariosa esposa de seu patrão e principal artista do elenco. Marlena e Jacob compartilham o amor pelos animais, e a aproximação tanto idealista quanto amorosa não tarda a despertar a ira de August Rosenbluth.

O roteiro de Richard LaGravenese (As Pontes de Madison, Escritores da Liberdade) demora para se encontrar. A trama avança a passos lentos, chegando a ser cansativa. O destaque dado a personagens e situações secundárias contribui com isso. Para se ter uma ideia, o primeiro beijo de Jacob e Marlena se dá apenas em 1 hora e meia de filme. Apesar da belíssima fotografia e produção de arte, e de certas semelhanças com o memorável Titanic (1997), a falta de momentos românticos entre o casal faz-se a grande decepção da história – no que, convenhamos, seria o seu mote obrigatório.

A ação dos momentos finais é intensa e culmina em um desfecho comovente e satisfatório. O epílogo, ambientado nos dias de hoje e com a participação do ótimo Hal Holbrook (Homens de Honra), complementa o enredo de tal forma que seria indispensável para o seu entendimento pleno, e a emoção e mensagem que transmite. Quase o salva de ser um filme tão chato.

Robert Pattinson começa Água para Elefantes um tanto perdido, falto de carisma e de expressão; evolui conforme a trama avança, e até demonstra alguma química com Wintherspoon. Mesmo assim, sua interpretação não satisfaz, tanto que, do trio protagonista, ele é sem dúvida o mais apagado. Reese Wintherspoon cumpre com o mínimo que se espera dela: desempenha Marlena com competência, embora não faça dela um papel marcante. Christoph Waltz, por sua vez, firma-se como o ponto mais alto do elenco, e brilha na pele do cínico e violento August. Destaque ainda para a participação da elefante Rosie, responsável por vários dos (poucos) bons momentos da película.

Água para Elefantes peca por mal-desenvolver o argumento forte, cheio de potencial de Sara Gruen. A poesia e sensibilidade da história original se mantém aos trancos e barrancos, e grande parte da emotividade se perde em um roteiro confuso e equivocado. Dá até para sair em dúvida se o programa valeu mesmo. 


Assista ao trailer:

(por Felipe Brandão)

Filme "Santuário" - Um alvoroço desnecessário

Baseado na experiência pessoal do roteirista Andrew Wight, a aventura subaquática Santuário (Sanctum, Estados Unidos, 2011) satisfaz pelo trabalho consistente de Wight e John Garvin, que compensam a premissa um tanto manjada com diálogos qualitativos e altas doses de emoção e adrenalina. O novo filme de James Cameron nos leva a provar de intensas emoções cinematográficas, além de conter um quê de polêmica; passa longe, porém, do frisson causado por seus precursores, como Titanic (1997) e o recente Avatar (2009).

O enredo tem por protagonistas ao bravo mergulhador Frank McGuire (Richard Roxburgh) e a seu filho Josh (Rhys Wakefield), que mantêm uma péssima relação. Josh nunca aceitou a obrigação de acompanhar o pai às expedições a cavernas subterrâneas, tampouco a negligência dispensada por Frank à família em prol de suas aventuras. Quando, no entanto, Frank, Josh e sua equipe acabam aprisionados em uma caverna do South Pacific Esa, com poucas chances de sobrevivência, pai e filho unem suas forças contra o destino aparentemente inevitável, tendo a chance de conciliar suas diferenças e rever o relacionamento há tanto desgastado.

A angústia paira sobre os personagens e sobre o público a cada sequência, à medida que a odisseia avança e se aproxima do desfecho, trágico para quase todos. As reviravoltas na ação refletem no caráter não apenas de Josh e Frank, mas também dos papéis secundários – como o economista Carl (Ioan Gruffud, Quarteto Fantástico) –, mostrando como a necessidade desesperada de sobrevivência, bem como os ápices paradoxais da generosidade humana, podem levar a atitudes imprevisíveis e consequências drásticas. A saga encerra-se em um desfecho abrupto, mas eficaz.

Apesar de interessante, Santuário tem em seu grande equívoco o não fazer jus ao marketing criado em seu entorno antes do lançamento. O filme não chega, qualquer que seja o critério, aos pés das expectativas geradas por James Cameron junto à imprensa e menos ainda das promessas de “superar Avatar”. Nessa, o produtor campeão de bilheteria em Hollywood fica nos devendo.


(por Felipe Brandão)

"Julie e os Fantasmas" - A série teen nacional que é a nova aposta da Band

A Band estreou recentemente a aguardada produção infanto-juvenil Julie e os Fantasmas, que vem sendo produzida desde o ano passado em parceria com a Nickelodeon e a produtora independente Mixer. O episódio piloto da série agradou pelo texto inspirado, apesar do elenco mediano e da produção que deixa a desejar.

O roteiro de Fábio Danesi foi, sem favor algum, o grande fator-surpresa da atração. Trata com leveza, graça e empatia os conflitos tipicamente adolescentes da protagonista, Julie (Mariana Lessa), com direito a feelings imperdíveis que fazem a diferença no resultado final. Pecou um pouco, talvez, por algumas referências e trechos que cairiam bem a uma série teen americana, mas que, “inseridos” no contexto tupiniquim, soam meio forçados.

A qualidade de imagem é excelente, denotando um investimento extra da produção, mas outras carências técnicas ainda são percebidas. Os cenários não são lá muito bons, com exceção do colégio onde Julie e sua turma estudam. A direção economiza nos takes e enquadramentos, conferindo um indesejável tom de “produção independente”, que dramaturgias como a novela Água na Boca (2008) e mesmo Floribella (2005-2006) não tinham.

O elenco demonstra potencial, como Mariana Lessa, Samya Pascotto (Bia) e Milena Martines (Thalita), mas muitos se veem imaturos, até com respeito à dicção em cena. O desempenho tão fraco de Mariana na cena em que Julie fica pela primeira vez cara a cara com o trio de “assombrações” do título, saídos de um disco de vinil, deixou claro que a atriz estreante de 19 anos ainda tem chão pela frente. Por outro lado, Bruno Sigrist mostrou-se seguro na pele do fantasma Daniel, que, ao que parece, terá mais importância na saga de Julie do que os outros dois. O pequeno Vinícius Mazzola também garantiu bons momentos ao público, com as travessuras de Pedro, o irmãozinho da heroína.



Olhares críticos à parte, deve-se lembrar que Julie e os Fantasmas é voltada para a o público de 12 a 16 anos, um segmento aparentemente menos exigente no que se refere ao lado técnico e artístico. A reação deles ao programa, que também será exibido pela Nickelodeon na TV paga, é que determinará se o projeto valeu ou não à pena.

(por Felipe Brandão)