domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre o deserto de Almas - Conto de Caio F. ganha versão teatral

Uma história de identificação e afetividade. De amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois.


“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Esse é um dos trechos iniciais do conto “Aqueles Dois”, presente no livro Morangos Mofados, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996). Essa é também uma das falas de Raul ou Saul – não importa, os atores deixam claro – na peça “Aqueles Dois”, encenada pela Cia Luna Lunera, de Belo Horizonte.

A peça é dirigida por Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati, os quatro primeiro são também os atores em cena.  A montagem de “Aqueles Dois” ganhou vários prêmios, entre eles o Prêmio Shell-SP de melhor iluminação (2008) além de também ter sido indicado à categoria de melhor direção e melhor cenário. Também participou do circuito Palco Giratório, do SESC, e foi o espetáculo eleito como o melhor de 2008 pelo Guia da Folha de São Paulo.


O enredo é simples, mas traz consigo uma grande carga de preconceito e crítica a mediocridade humana, ao mesmo tempo em que carrega também um encantamento, uma coisa meio happy ending, que Caio Fernando Abreu gostava tanto. “Aqueles Dois” é um recorte de tempo e espaço nas vidas de Raul e Saul. Ambos começam a trabalhar em uma repartição pública, que funciona como uma espécie de metáfora abrangente para tudo o que sufoca e reprime, e logo que se conhecem já se reconhecem de uma forma mais profunda. Primeiro pelo nome Raul e Saul – quando se lê invertido os dois nomes se tornam Luar e Luas - depois pela enorme solidão que os assombrava naquela cidade, onde todos tinham vindo de todas as direções. E a peça se desenrola em torno disso: um deserto de almas onde duas almas se identificam desde o primeiro minuto do primeiro segundo. No entanto, a tensão se encontra em uma questão: a relação dos dois acaba despertando um incômodo geral na repartição pública.

A peça é a representação exata do conto. E o adjetivo “exata” não quer dizer que ela não extrapole e transcenda, muito pelo contrário: ganha exatamente por aí: pelo ato de extrapolar o texto, transcender o enredo.

O desenvolvimento tem um ritmo único - talvez pela ótima sacada de transformar aqueles dois em aqueles quatro sem deixar de ser aqueles dois, talvez por ser “interrompida” em lapsos de realidade, como quando os quatro atores, nus, se deitam no chão e discutem para quem a peça será dedicada naquela noite - Caio sempre dedicava seus textos a alguém.
Como é dito pela própria Cia Luna Lunera em um encarte que é dado assim que se entra no espetáculo: “Vadiamos com Caio. Cinema, Audrey, Shirley, Gene Kelly, Almodóvar, trilhas, Oscar e sua arquitetura, Van Gogh...“.  É realmente uma grande mistura. De personagens - Raul às vezes é Saul e Saul às vezes se torna Raul - de trilhas sonoras - Cazuza, Bebel, Ângela Rô Rô, o tango El día que me quieras, o bolero Tu me acostumbraste, Carlos Gardel - de cartas de Caio, contos, crônicas...

No livro Morangos Mofados, logo abaixo ao título do conto está escrito: “Uma história de aparente mediocridade e repressão”. E a peça é isso. Mas não é apenas isso. É uma história de identificação e afetividade. De amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois. Nada falta para a construção da atmosfera de Raul e Saul. O cenário é propositalmente simples e móvel, vez em quando é o quarto de um ou de outro, vez em quando é a repartição. A peça também tem um toque de humor e leveza que o conto não traz, mas que só somou à naturalidade das relações representadas.

A atuação dos quatro atores é tão natural que às vezes me perguntava se eles estavam improvisando, falando de pura vontade, puro sentimento, ou se aquilo era mesmo parte do texto. Ainda não obtive essa resposta.

Ao fim do espetáculo, em que é dito o último trecho do conto do Caio (“Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”), a minha reação foi um sorriso sufocante. Sorriso, por ver um conto tão escancaradamente literário sendo representado de maneira brilhante e bem feita, e sufocante, por perceber a sutileza da mediocridade e a tamanha profundidade e complexidade que o olhar limitado e repressor esconde.

Voltei pra casa amando Raul e Saul, como tantas vezes eu amei em texto. E cantando baixinho: Tu me acostumbraste a todas esas cosas Y tu me enseñaste, que son maravillosas...

(por Layse Moraes)

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