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| foto de Sérgio Ranalli |
Diante de todo o relato mostrado por várias fotografias tiradas por Ranalli em suas viagens, chega-se a uma triste conclusão: a dor é fotogênica. Pode parecer contraditório e até um pouco frio, mas pelo contrário, a dor é fotogênica no sentido cru da palavra: fica bem representada pela fotografia. Entre tantas coisas belas do mundo, fotógrafos como Sérgio Ranalli, Sebastião Salgado, Henri Cartier-Bresson e Robert Capa optaram por mostrar o feio. E o feio por trás das lentes de tantas câmeras pode esconder uma beleza quase que aterrorizante. Susan Sontag diz que “mesmo que sejam apenas símbolos e não possam, de forma alguma, abarcar a maior parte da realidade a que se referem, elas ainda exercem uma função essencial.”
É uma realidade dolorida, porém, é uma realidade. Incomoda. Arde. Desconforta ao mesmo tempo em que nos faz agradecer a nossa condição e devanear. São retratos do cartão de visita do lado obscuro da vida. O outro lado do espelho. Os olhares tristes que esquecemos de ver, o sangue que nunca sentimos o cheiro, a fome que nunca nos atingiu.
Se fosse perguntado para várias pessoas qual a sensação que esse tipo de fotografia desperta nelas, com certeza seriam ouvidas respostas totalmente diferentes. É essência puramente imagética. É a realidade das fotografias misturada com a nossa própria. Paradoxo. Contradição. A imagem como metáfora da dor.
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| foto de Sérgio Ranalli |
A condição humana tem andado por caminhos nada agradáveis, realmente. O papel do jornalista na construção do retrato dessa condição pode ser comparado facilmente ao trabalho de polícia: investigação e mergulho dentro de um caso que envolve nada mais nada menos do que todos os habitantes desse planeta: desde desabrigados, refugiados, esquecidos, até o mais alto escalão da sociedade.
Por trás de tanta dor retratada de forma tão poética e sensível por tantas lentes, ainda sobra a dignidade. E foi essa dignidade que se sobressaiu à dor e ficou marcada na memória de Sérgio Ranalli. A dignidade de existir, mesmo que esquecido. De sorrir, mesmo com mil motivos para fazer exatamente o contrário. De continuar vivendo, mesmo com a realidade a bater no rosto. Por um segundo, nesse instante decisivo tão citado, nesse pequeno átimo, as pessoas retratadas em tantas fotografias puderam levar a quem quer que as vejam – e que se faça a devida diferença entre olhar e ver – o significado cru de um verbo por trás de tantas marcas, o verbo ser. Por poucos segundos puderam dizer com um sorriso e um olhar o que muita gente demora a vida inteira pra se dar conta: Eu sou.
(por Layse Moraes)


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