domingo, 20 de novembro de 2011

A dor é fotogênica - Um olhar sobre as fotografias de Sérgio Ranalli

foto de Sérgio Ranalli
Quando se fala de fotografia, uma das primeiras coisas que vêm em mente é o conceito de instante decisivo, criado pelo fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson. Nas palavras dele: “Dentro do movimento existe um instante no qual todos os elementos que se movem ficam em equilíbrio. A fotografia deve intervir neste instante, tornando o equilíbrio imóvel.” Walter Benjamin também fala sobre: “mesmo na reprodução mais perfeita falta uma coisa: o aqui e o agora da obra de arte”. Nesse caso, a fotografia é a obra de arte, pois é singularizada pelo momento. Esse conceito pode ser comparado e somado à arte de recortar as mais diversas cenas e dar a certo momento um gosto de eternidade. Sérgio Ranalli, fotógrafo e editor da Folha de Londrina, viajou por vários lugares, incluindo Haiti, antes e depois do terremoto, Amazonas e Antártica e é um exemplo disso tudo e de que mais do que uma câmera na mão o fotógrafo precisa ter tesouras no olhar. “Fotografar é igual a ter uma tesoura nas mãos, você escolhe que parte da realidade vai recortar”, diz ele. Ranalli foi influenciado principalmente por Sebastião Salgado e o próprio Cartier-Bresson.

Diante de todo o relato mostrado por várias fotografias tiradas por Ranalli em suas viagens, chega-se a uma triste conclusão: a dor é fotogênica. Pode parecer contraditório e até um pouco frio, mas pelo contrário, a dor é fotogênica no sentido cru da palavra: fica bem representada pela fotografia. Entre tantas coisas belas do mundo, fotógrafos como Sérgio Ranalli, Sebastião Salgado, Henri Cartier-Bresson e Robert Capa optaram por mostrar o feio. E o feio por trás das lentes de tantas câmeras pode esconder uma beleza quase que aterrorizante. Susan Sontag diz que “mesmo que sejam apenas símbolos e não possam, de forma alguma, abarcar a maior parte da realidade a que se referem, elas ainda exercem uma função essencial.”

É uma realidade dolorida, porém, é uma realidade. Incomoda. Arde. Desconforta ao mesmo tempo em que nos faz agradecer a nossa condição e devanear. São retratos do cartão de visita do lado obscuro da vida. O outro lado do espelho. Os olhares tristes que esquecemos de ver, o sangue que nunca sentimos o cheiro, a fome que nunca nos atingiu.

Se fosse perguntado para várias pessoas qual a sensação que esse tipo de fotografia desperta nelas, com certeza seriam ouvidas respostas totalmente diferentes. É essência puramente imagética. É a realidade das fotografias misturada com a nossa própria. Paradoxo. Contradição. A imagem como metáfora da dor.
foto de Sérgio Ranalli
Dentro desse quadro o fotógrafo tem um papel decisivo, claramente. É pelos olhos dele que vemos o que os nossos olhares não conseguem captar. Sebastião Salgado disse: “Minhas fotografias são um vetor entre o que acontece no mundo e as pessoas que não têm como presenciar o que acontece. Espero que a pessoa que entrar numa exposição minha não saia a mesma. (....) Espero que tanto como indivíduos, grupos ou uma sociedade, façamos uma pausa para pensar na condição humana na virada do milênio. Na sua forma mais brutal, o individualismo continua sendo uma fórmula para catástrofes. É preciso repensar a forma como coexistimos no mundo.”

A condição humana tem andado por caminhos nada agradáveis, realmente. O papel do jornalista na construção do retrato dessa condição pode ser comparado facilmente ao trabalho de polícia: investigação e mergulho dentro de um caso que envolve nada mais nada menos do que todos os habitantes desse planeta: desde desabrigados, refugiados, esquecidos, até o mais alto escalão da sociedade.

Por trás de tanta dor retratada de forma tão poética e sensível por tantas lentes, ainda sobra a dignidade. E foi essa dignidade que se sobressaiu à dor e ficou marcada na memória de Sérgio Ranalli. A dignidade de existir, mesmo que esquecido. De sorrir, mesmo com mil motivos para fazer exatamente o contrário. De continuar vivendo, mesmo com a realidade a bater no rosto. Por um segundo, nesse instante decisivo tão citado, nesse pequeno átimo, as pessoas retratadas em tantas fotografias puderam levar a quem quer que as vejam – e que se faça a devida diferença entre olhar e ver – o significado cru de um verbo por trás de tantas marcas, o verbo ser. Por poucos segundos puderam dizer com um sorriso e um olhar o que muita gente demora a vida inteira pra se dar conta: Eu sou.


(por Layse Moraes)

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