Teledramaturgia - A Vida da Gente

Enredo apaixonante, sensível, com personagens profundos e verdadeiros e um pano-de-fundo mais que atual: as novas relações familiares.

Olhos na realidade e pés fora do chão - Um perfil do poeta Nelson Capucho

“A poesia parece uma inclinação. Todas as pessoas que eu conheço que escrevem poesia têm uma sensibilidade. Parece que o cara nasce poeta”, diz ele.

Poesia concreta - Intervenções urbanas

Muros, faixas de pedestre, pontes, edifícios, construções... Tudo se torna tela.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Calados por Cat Power

Flores, melancolia e minimalismo no show da cantora    
                                                                      
Um pouco de Janis Joplin com um quê de Aretha Franklin e Bob Dylan, misturados com uma pegada minimalista, melancolia, jazz, solidão e uma voz extraordinária... Isso foi o que foi ouvido e sentido durante a Virada Cultural Paulista no show da Cat Power, ou, se preferir, Chan Marshall, verdadeiro nome da cantora e compositora estadunidense que foi definida pelo The New York times em 2006 como indie-folk rocker.

Cat Power já teve problemas com álcool e drogas, o que acabou culminando em uma depressão profunda e até pensamentos suicidas no final da década de 90. “Eu perguntei a Deus... eu disse: estou cansada, eu não posso fazer isso. Eu estava pedindo a ele que simplesmente me levasse”, disse ela a uma entrevista ao The New York Times, em 2006 . Ela também era extremamente tímida e tinha uma espécie de pânico de palco, o que acabava fazendo com que fizesse os show quase que fora do corpo. Nessa fase, chegou a ponto de decidir abandonar a carreira musical completamente, mas mudou de ideia depois de uma noite de pesadelos onde surgiram as letras de seu álbum Moon Pix (1998), que foi muito bem recebido pela crítica. Nada disso seria relevante se muito de suas músicas não refletissem bastante uma sensação de não pertencimento e procura constante de algo que talvez não exista – Losing the star without a Sky, como diz a letra de Metal Heart.

A espera por ela começou cedo. O show estava marcado para às 17h, e à 13h da tarde já havia pessoas sentadas em frente ao palco, coladas na grade, sedentas por aquele vocal rouco e doloridamente belo. Via-se de longe pessoas escrevendo cartas, cartazes, contando fatos e desfilando sutilmente com camisetas com a foto dela. Mas o que se sentia de mais forte era uma ansiedade gritante e muda que só sabia esperar pela voz.

Cat Power canta de um jeito que ao mesmo tempo que impressiona, encanta silenciosamente pelos gestos lentos e arrastados, pelos olhos fechados e pelo chá, que, na pausa entre uma música e outra, ela se abaixa para tomar. Ela, que já foi comparada a um monge em autoflagelo medieval pelo jornal O Globo por tamanha hermeticidade no palco, dessa vez estava perceptivelmente mais aberta e solta, arriscando até mesmo algumas dancinhas e sorrindo sem parar.

Assim que entrou, o Parque da Cidade de São José dos Campos - já banhado pelo pôr do sol - que antes ainda tinha alguns metros de grama visível, já estava cheio de gente. Alguns, fãs fervorosos, desses à moda antiga, que já tinham acompanhado o show do dia anterior, também pela Virada Cultural, em Jundiaí. Outros, estavam ali ouvindo-a pela primeira vez, mas igualmente àqueles velhos conhecedores, colocaram-se em estado de êxito ao escutar as primeiras notas. Tudo o que se pôde perceber quando Cat Power entrou no palco foi um minuto de excitação geral. O show começou com “Don’t Explain”, faixa de seu último disco, Jukebox (2008) – uma música extremamente dolorida que começa dizendo: Hush now, don’t explain/You’re the cause of all my trouble and pain/ There is nothing within me now to gain.

Tirando a manifestação da plateia nas pausas entre as músicas, nas quais se ouvia frases em inglês como “You’re my Bob Dylan” , o silêncio era o que mais chamava atenção depois daquela voz triste sussurrando, gritando, cantando músicas como a famosa “The Greatest”, trilha sonora do filme Um beijo Roubado (My Blueberry Nights), “Ramblin (Wo)man” e “Sea of love”. Cat Power agradecia cada silêncio e cada grito, principalmente os que mencionavam Bob Dylan – ídolo maior da cantora e inspiração de uma de suas composições, também de se último disco: Song to Bobby - Giving you my heart/ Was my plan/ I wish I could tell you.

Olhando em volta se via apenas um monte de olhos desconhecidos, anônimos, estrangeiros, mas olhos encantados, envoltos na transcendência do piano, dos solos de guitarra e daquela voz de adjetivo indizível.

A verdade é que tem muito de Chan Marshal em Cat Power. Mesmo no palco ela era extremamente humana e não tinha quase nada daquela idealização romântica que as grandes cantoras têm.

Disse muitas vezes “I love you, Brasil” e “obrigada”, disse também que todos estavam muito longe e que era pra chegarem mais perto - ela está acostumada a fazer shows em que o caráter intimista transcende a música e deixa o público bem mais próximo dela – proximidade impossível devido à quantidade de seguranças e à grade que mantinha a grande distância obrigatória. Mas ao final do show, quando Chan joga flores e distribui set lists, essa grade se fez invisível. Todo mundo deu um jeito. Eu inclusive. Peguei uma flor e um pedaço do set list, que por sorte era exatamente o pedaço que tinha a minha música preferida: “Metal Heart”. Depois disso, ela ainda tocou um pouco de bateria, com os cabelos suados e sorrindo bastante. Feliz e leve – finalmente. As pessoas sorriam em resposta, em uma espécie de comunicação mútua.

Há muito de Chan Marshal em Cat Power e quando ela saiu do palco o silêncio voltou a ser barulho e tudo o que consegui pensar, ainda atônita, foi: Chan, you’re my Bob Dylan. 


(por Layse Moraes)

Viagem - A beleza dos EUA que eu conheci

Los Angeles, mais um poema de vida do que uma cidade, mais uma trilha sonora do que uma metrópole.  O incrível é a capacidade de transformação da cidade. Transformação de sentimentos, de ideias, de paradigmas. A cidade oferece feiras de antiguidades ao ar livre, cenas de filmes sendo gravadas na esquina de sua casa, aulas de yoga para a comunidade, empregos bons e de fácil acesso....

A diversidade cultural nos Estados Unidos, e principalmente em Los Angeles, é o que mais fascina quem vem de fora. Não são apenas diferenças de cultura entre países. É algo muito além.  Pode se ver de tudo numa mesma esquina, francês roqueiro, libanês pop, cubano intelectual... E o melhor, as pessoas não vivem como se estivessem interpretando um papel para serem aceitos na sociedade, mas escolhem um estilo de vida. É como se a filosofia grudasse nos ossos deles e precisasse ser expressa através de suas roupas, atitudes, gestos e sorrisos. A intensidade em tudo é algo visivel, marcante nessas pessoas.

Aqueles quem chegam de fora se misturam facilmente com os americanos. Todos encontram receptividade nos grupos. As pessoas querem se socializar, conhecer, explorar, se ajudar.
A educação do pais é considerada egocêntrica, mas se não fosse assim, será que eles seriam os Estados Unidos que conhecemos? Entretanto essa egocentricidade é relativa em muitos aspectos. Sabe aquela historia de que não existe mais inteligente, nem menos, mas sim inteligências diferentes? Os americanos que conheci se demonstraram práticos, ágeis, comunicativos, expressivos, cheios de atitude. Lá, não basta existir, trabalhar e comprar coisas legais. Você sente uma necessidade de viver o que você prega que acredita, ou então se perde no meio de outros com mais atitudes que você.

Uma pergunta permeia os pensamentos de qualquer pessoa que fica um tempo morando lá. "Será que é a vida que imita a arte, ou a arte é que imita a vida?". As situações que vivemos nos envolvem, e tiram de nós o melhor, nos surpreendendo em todos os aspectos, inclusive na semelhança com os fatos narrados nas telonas.

Los Angeles é uma cidade enorme, que teve de ser dividida em "bairros" que se comportam mais como mini cidades dentro de uma mega cidade. Malibu, Venice, Santa Monica, Passadena, San Pedro, Hollywood, Los Feliz, Beverly Hills.... Cada bairro tem sua característica marcante, cada bairro tem seu ritmo de vida.

Venice beach é uma praia encantadora, cheia de hippies, ativistas, espiritualistas, regueiros... Todos reunidos numa mesma praia, compartilhando um estilo de vida livre. Todos os finais de semana, às 4 horas da tarde eles se reúnem na areia, em frente o mar, para celebrar o pôr-do-sol. Crianças, velhos, jovens, homens e mulheres, tambores, flautas, violas. A emoção toma conta de você. Quando se dá por si, lá está você também, celebrando o pôr-do-sol com mais umas 200 pessoas que você nunca viu e nunca imaginou ser possível existir.

Hollywood... confesso que me apaixonei por essa mini cidade muito loca. Na Boulevard tem uma escola de música que traz jovens aspirantes a ídolos musicais e torna a rua um desfile de esquisitos. Todos misturados, todos com atitude forte, todos encantadores. Lá também é onde ficam uma boa parte dos homeless da cidade, dos mendigos, que não são tão mendigos assim, têm dinheiro para viver, comer, mais não conseguem bancar uma casa, uma vez que a moradia lá é extremamente caro. Pessoas fantasiadas de personagens marcantes dos filmes acampam na frente do Teatro Kodak para pousarem para fotografias com os turistas e ganhar com isso 2 dólares por fotografia. Mas senti que o que eles buscam é mais diversão.
Santa Monica, a praia dos emergentes. Malibu, a dos milionários. Aliás, Malibu é praticamente apenas casas, têm pouco comércio, poucas ruas. A cidade de Los Angeles quase não têm prédios, é bem espalhada e faz jus às cenas que vemos nas telas do cinema. O clima seco e quente nos comove, envolve e move.
Essa expressão de vida, essa paixão se expande pelos outras cidades do país. Nova York parece um cenário de fotografia, hawaii, o do sonho de todos.


Nova York se assemelha com uma maquete. A beleza da cidade parece algo geométrico. Tudo se encaixa, tudo combina. A cidade foi feita para se explorar. Cada pedaço te convida. O incrível é ver que tudo se assemelha ao que vemos nas telas, porém muita coisa fica escondida. Times Square é a locura que vemos em filmes hollywoodianos, porém nela vemos mendigos que as telas escondem, e o dia a dia da cidade que te consome.
O movimento é frenético, e mais uma vez, a diversidade cultural toma conta da cidade. No trânsito, todos buzinam, gritam, é uma loucura. Não é uma cidade fácil, e reúne pessoas que querem mais da vida e de si. Todos se dedicam e muito à vida profissional, à aparência, à conquistas materiais. Lá aprendemos a ver a vida do lado avesso, a conhecer nossa outra face, e consequentemente nos vemos na necessidade de nos perdoarmos e seguir em frente. Museus, restaurantes, lojas, tudo tem uma arquitetura estonteante, que te segura o olhar. Cavalos na rua, para os passeios românticos, sim, é de verdade! Lá também te é exigido atitude, e firmeza. Curiosidade é algo mais que necessário, uma vez que os melhores serviços, como restaurantes, lojas, bares, estão escondidos. Então, ou você conhece alguém que te leva à esses misteriosos lugares, ou usa da sua curiosidade para chegar lá. Como em uma grande loja de departamento, tem que fuçar, cavar na cidade para se chegar ao ouro.

A melhor maneira de se locomover é a pé, e sem direção. Porém, leve um mapa para se encontrar. Mas se perder na cidade é uma delícia, se encontrar então, uma prova de bom senso de direção. Comer também é uma aventura, e mais uma vez, os lugares mais escondidos são os melhores. Todos te ajudam se você se perder. Todos adoram dar dicas, e fazer amizades. Comprar é uma maravilha, pois na América não se tenta ganhar dinheiro com as vendas, mas sim vender um grande número de produtos, então tudo lá é muito barato. Andar na rua é participar de um desfile de moda à plena luz do dia. Todos os estilos no mesmo quarteirão. Ninguém tem vergonha, pois ninguém olha, então a liberdade de expressão é fácil de existir. Nova York é uma cidade que todos devem conhecer. Em um dia você se apaixona, em dois aprende a se localizar, em três não quer mais sair de lá.

O Hawaii é sem palavras. Um lugar paradisíaco. É formado por nove ilhas. Estive apenas em uma, que acredito ser a mais conhecida. O nome da ilha é O`AHU, nela estão Waikiki, praia dos ricos, Honolulu, parece mais praia de barbie, a areia é branca, o mar azul como o céu, a vegetação verde e parece de plástico. Também na mesma ilha econtramos o Pipeline, praia de surfistas, que no inverno fica até proibido molhar os pés na água, pois se corre o risco de ser levado para a fúria das ondas. Também foi lá que ocorreu o episódio do Pearl Harbor, muito interessante de visitar. Pareceu-me também que muitos filmes de Hollywood são gravados lá. Câmeras em todos lugares, atores em todas esquinas. O calor é fritante, o mar uma delícia. Todos te ensinam a surfar, a remar. Eles querem que você entre no mar e explore tudo que para eles é diário.
A relação estabelecida entre os surfistas da região é incrível. Pai, filho e neto passam os dias olhando para o mar, bebendo uma cerveja e surfando quando a vontade bate. Parece que ninguem trabalha nem estuda. As crianças matam aula para surfar, então precisa-se de guardas para fazer a vigia nos mares. Os hábitos alimentares do continente atingiram a ilha, e todos amam Mc Donald`s, mesmo tendo na ilha uma diversidade enorme de frutas e vegetais.
Incrivelmente os havaianos são tailandeses gordos, o que te assusta no começo, pois pelo que vemos nas telas, o país é lotado de gente bonita, magra e surfista. Mas não é assim. Os nativos da região estão cada vez mais gordos. Entretanto sair para explorar a culinária do local te proporciona o contato com gosotos desconhecidos. Sopas de vietnamitas, peixe cru, muito peixe cru, com temperos diferentes. Quase tudo tem abacaxi, uma vez que esta é a fruta da região. Lá você precisa de um carro para se mover de um lado para o outro. E muita preguiça para poder ficar deitado o dia inteiro tomando uma cerveja e olhando para o mar e pensando "Porque, meu pai, não nasci no Hawaii?".

(por Amanda Martins)

Poesia concreta - Intervenções urbanas


A arte está perdida? Hoje em dia, não sabemos mais o que é arte ou não. E entre aquelas que são, existe sempre o questionamento: é ou não é arte? É difícil corresponder às exigências da sociedade. É difícil surpreender alguém, e, mais ainda, fazer algo diferente e inovador. A cidade nos engole, nos consome. Felizmente vemos uma nova geração vindo com alto estilo. Os novos artistas se aproveitam dessa confusão da cidade e em vez de se deixarem engolir por ela, mudam seu contexto com desenhos, intervenções, e até confusões. Muros, faixas de pedestre, pontes, edifícios, construções... Tudo se torna tela. Entre eles, existe um respeito combinado, não se desenha em cima do desenho do outro. Entretanto esta é uma arte rápida e efêmera.  Você pinta hoje e uma semana depois pode não ver mais seu trabalho. Entretanto, essa uma semana já é o suficiente para causar mudanças filosóficas, sociais e comportamentais na sociedade.

Mensagens são passadas através dessa arte, reflexões acerca da vida, e um estilo, uma mensagem visual que comove a todos nós. Foi encontrada uma ótima maneira de se protestar e se fazer ouvir em meio a tantos barulhos. São Paulo é uma cidade que tem muitas dessas mentes que visam mudar a sociedade através de sua pintura. Na cidade de bauru, a quantidade de novos artistas é incrível. Todos querem trabalhar com a comunicação visual. Matheus Marques é um deles, espalha seu apelido "fino" por toda a cidade. Usa sua tag, que é a assinatura do grafiteiro para o reconhecimento do seu trabalho, como uma etiqueta, para marcar o território e expressar suas mensagens. Fica claro que ele usa a cidade em vez de se deixar ser usado por ela. Ao conhecê-lo mais de perto fica nítida a maneira como a arte toma a vida e a mente desse rapaz. Tudo se transforma em sua cabeça. A capacidade de criação e transformação é incrível.


Intervenções surpreendentes são marcadas pelo improviso e agilidade, as criações se destacam em meio a tantos outros rabiscos perdidos. Tudo se torna material artístico na mão de quem sabe viver de acordo com a famosa frase.. "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma." 


(por Amanda Martins)

Filme "Mera Coincidência" - Na Casa Branca, nem tudo é o que parece

O filme Mera Coincidência é baseado no livro “American Hero” de Larry Beinhart. Dirigido por Barry Levinson e estrelado por Dustin Hoffman e Robert de Niro, é uma ficção que traz a história de uma disputa eleitoral nos Estado Unidos, em que o atual presidente é o favorito para a reeleição. Nas vésperas do pleito, surge um escândalo sexual envolvendo o presidente e uma amante, o que poderia mudar esse quadro. Isso acaba acarretando no posicionamento da assessoria, que logo pensa em algo para  abafar essa  situação.

Ames, sua assessora, entra em contato com um grande profissional de marketing, Conrad Bream (Robert De Niro), para lhe ajudar na missão. Depois de pensarem muito, chegaram a uma conclusão, a solução seria  criar um assunto no qual desviassem a atenção da mídia e da população, e escondessem o escândalo.

O próximo passo seria o planejamento de um acontecimento importante. Depois de algumas idéias, surge a de criar uma guerra contra a Albânia, mesmo que nenhum albanês estivesse em clima hostil com algum americano, ou coisa parecida. Para produzir esta grande mentira, os assessores chamam  produtor de Hollywood, Stanley Moss, interpretado por Dustin Hoffman.

O argumento utilizado para a suposta guerra na Albânia foi o de que o povo queria liberdade. Apesar de o país negar a situação surpreendente, o Presidente disse que resolveria tudo da melhor forma, pedindo calma a todos.

Os profissionais usam os mais variados recursos cinematográficos para dar mais realidade às encenações. As gravações tinham apelo emocional e patriótico.

Um presidiário (interpretado por Woody Harrelson)  condenado por estuprar uma freira é contratado para fazer o papel do soldado herói. Ele morre e então encena-se um enterro com direitos a honras militares para causar mais emoção e  veracidade.

Uma das cenas notáveis e mais comentadas do filme foi gravada em um estúdio com uma moça americana, interpretando uma albanesa, correndo desesperada, como se fosse uma refugiada de guerra. Depois os produtores editam as imagens, mostrando o que faz  lembrar um cenário de guerra, com prédios em ruínas, lugares abandonados, amontoados de escombros e outras imagens chocantes.

O marqueteiro, personagem de Robert De Niro, afirma que o que a televisão transmite é verdadeiro, mesmo sabendo que ele é quem idealiza as informações mentirosas. É aí que entra a discussão que o filme cria, o que é realidade e o que a mídia cria afirmando ser verídico; a manipulação na mente das pessoas deixando-as cegas diante dos fatos.
Além de conseguir desviar a atenção da população, a falsa guerra ajuda a promover politicamente o presidente norte americano  que passava a imagem de um  governante  pacificador.

 Por mais que as dificuldades vão surgindo o alvo é desviar a atenção de todos, e preservar a Casa Branca dos possíveis abalos. Dessa forma, cada acontecimento que pareça uma ameaça é contornado pelos personagens com  mais mentiras sustentadas como verdade.
No fim, surpreendentemente o  produtor percebe que a guerra falsária foi a melhor produção de sua vida e o que ele quer são créditos, não está interessado em um bom cargo público ou dinheiro, mas em reconhecimento pela sua criação. Depois morre misteriosamente.

Mera coincidência, que tem apenas 93 minutos, foi produzido e lançado em 1997.

(por Areuza Oliveira)

Londrina expõe a arte da liberdade

A cidade de Londrina teve o privilégio de desfrutar um pouco da liberdade da arte contemporânea. Entre os dias 3 a 20 de outubro, artistas de todo o Brasil reuniram as suas obras no Salão de Arte Contemporânea de Londrina. O local escolhido para abrigar a mostra, foi o Museu de Arte da cidade.

Arte conhecida por proporcionar liberdade e vários recursos materiais aos artistas, foi exposta em Londrina, por meio do 1° Prêmio Londrina de Arte Contemporânea, em que, das 87 obras inscritas, 26 foram selecionadas a serem apresentadas. Pinturas, fotografias, instalações, desenhos e vídeoarte, foram protagonistas do Salão de Arte, que trouxe um recorte especial da arte contemporânea no Brasil.

Com a criação deste Prêmio em na cidade, segundo o coordenador do Prêmio Londrina, Marcos Costa, a organização buscou proporcionar aos artistas a oportunidade de apresentarem suas obras e ao público, de estabelecer contato com a arte contemporânea. “De caráter formativo, o evento busca multiplicar esse público na cidade”, afirmou.

Através do tema proposto, “A Arte em Defesa da Terra: Urgente”, os artistas ergueram um alerta para a preservação ambiental, promovendo assim, uma reflexão sobre a vida por meio da arte. “Falar e pensar em arte contemporânea é, acima de tudo, propor uma análise crítica que interroga e que atribui novos significados e novos conceitos em arte”, enfatiza Costa.

Vencedores do 1° Prêmio Londrina de Arte Contemporânea

Autorretrato com pombo
Entre as 26 obras selecionas, três foram premiadas. Em primeiro lugar ficou o vídeo “Tempestade”, trabalho de Bárbara de Azevedo, de São Paulo; a obra selecionada para o segundo lugar foi a “Quatro experiências” - cadernos de desenho do artista, do londrinense Márcio Diegues; já em terceiro foi escolhida a fotomontagem digital impressa em adesivo autocolante, com o tema “Autorretrato com pombo”, do também londrinense, Peterson Dias.

Os prêmios são os seguintes: R$ 5.000,00 para o primeiro colocado, R$ 2.000,00 para o segundo e o terceiro lugar ficou com R$ 1.000,00. A relação dos finalistas está no site www.artecontemporanealondrina.art.br.    

A comissão julgadora concedeu, ainda, menções honrosas a dois artistas de Goiânia, no estado de Goiás: Rava Monique, que inscreveu trabalhos de duas séries em bordados sobre sacolas de plástico e Glayson Arcanjo, que apresentou fotografias com desenhos em demolições.

Link para mais informações: http://artecontemporanealondrina.art.br/

(por Mayara Teles)

domingo, 20 de novembro de 2011

Sobre o deserto de Almas - Conto de Caio F. ganha versão teatral

Uma história de identificação e afetividade. De amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois.


“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Esse é um dos trechos iniciais do conto “Aqueles Dois”, presente no livro Morangos Mofados, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996). Essa é também uma das falas de Raul ou Saul – não importa, os atores deixam claro – na peça “Aqueles Dois”, encenada pela Cia Luna Lunera, de Belo Horizonte.

A peça é dirigida por Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati, os quatro primeiro são também os atores em cena.  A montagem de “Aqueles Dois” ganhou vários prêmios, entre eles o Prêmio Shell-SP de melhor iluminação (2008) além de também ter sido indicado à categoria de melhor direção e melhor cenário. Também participou do circuito Palco Giratório, do SESC, e foi o espetáculo eleito como o melhor de 2008 pelo Guia da Folha de São Paulo.


O enredo é simples, mas traz consigo uma grande carga de preconceito e crítica a mediocridade humana, ao mesmo tempo em que carrega também um encantamento, uma coisa meio happy ending, que Caio Fernando Abreu gostava tanto. “Aqueles Dois” é um recorte de tempo e espaço nas vidas de Raul e Saul. Ambos começam a trabalhar em uma repartição pública, que funciona como uma espécie de metáfora abrangente para tudo o que sufoca e reprime, e logo que se conhecem já se reconhecem de uma forma mais profunda. Primeiro pelo nome Raul e Saul – quando se lê invertido os dois nomes se tornam Luar e Luas - depois pela enorme solidão que os assombrava naquela cidade, onde todos tinham vindo de todas as direções. E a peça se desenrola em torno disso: um deserto de almas onde duas almas se identificam desde o primeiro minuto do primeiro segundo. No entanto, a tensão se encontra em uma questão: a relação dos dois acaba despertando um incômodo geral na repartição pública.

A peça é a representação exata do conto. E o adjetivo “exata” não quer dizer que ela não extrapole e transcenda, muito pelo contrário: ganha exatamente por aí: pelo ato de extrapolar o texto, transcender o enredo.

O desenvolvimento tem um ritmo único - talvez pela ótima sacada de transformar aqueles dois em aqueles quatro sem deixar de ser aqueles dois, talvez por ser “interrompida” em lapsos de realidade, como quando os quatro atores, nus, se deitam no chão e discutem para quem a peça será dedicada naquela noite - Caio sempre dedicava seus textos a alguém.
Como é dito pela própria Cia Luna Lunera em um encarte que é dado assim que se entra no espetáculo: “Vadiamos com Caio. Cinema, Audrey, Shirley, Gene Kelly, Almodóvar, trilhas, Oscar e sua arquitetura, Van Gogh...“.  É realmente uma grande mistura. De personagens - Raul às vezes é Saul e Saul às vezes se torna Raul - de trilhas sonoras - Cazuza, Bebel, Ângela Rô Rô, o tango El día que me quieras, o bolero Tu me acostumbraste, Carlos Gardel - de cartas de Caio, contos, crônicas...

No livro Morangos Mofados, logo abaixo ao título do conto está escrito: “Uma história de aparente mediocridade e repressão”. E a peça é isso. Mas não é apenas isso. É uma história de identificação e afetividade. De amor. Não necessariamente carnal, mas um amor que pede, que implora por algo que preencha o vazio daqueles dois. Nada falta para a construção da atmosfera de Raul e Saul. O cenário é propositalmente simples e móvel, vez em quando é o quarto de um ou de outro, vez em quando é a repartição. A peça também tem um toque de humor e leveza que o conto não traz, mas que só somou à naturalidade das relações representadas.

A atuação dos quatro atores é tão natural que às vezes me perguntava se eles estavam improvisando, falando de pura vontade, puro sentimento, ou se aquilo era mesmo parte do texto. Ainda não obtive essa resposta.

Ao fim do espetáculo, em que é dito o último trecho do conto do Caio (“Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.”), a minha reação foi um sorriso sufocante. Sorriso, por ver um conto tão escancaradamente literário sendo representado de maneira brilhante e bem feita, e sufocante, por perceber a sutileza da mediocridade e a tamanha profundidade e complexidade que o olhar limitado e repressor esconde.

Voltei pra casa amando Raul e Saul, como tantas vezes eu amei em texto. E cantando baixinho: Tu me acostumbraste a todas esas cosas Y tu me enseñaste, que son maravillosas...

(por Layse Moraes)

Filme "Água para elefantes" - Quando o amor (não) acontece

Assistir a Água para Elefantes (Water for Elephants, Estados Unidos, 2011) pode ser uma experiência um tanto frustrante. A adaptação do diretor Francis Lawrence (Constantine, Eu Sou a Lenda) para o best seller de Sara Gruen (P.S.: Eu Te Amo) não é de todo ruim, mas deixa a impressão de que poderia ter sido bem melhor do que foi.

O enredo, ambientado na Grande Depressão norteamericana (década de 1930), gira em torno do jovem Jacob Jankowski (Robert Pattinson, Saga Crepúsculo), estudante de veterinária que abandona o curso às vésperas de concluí-lo, em decorrência da trágica morte de seus pais. Afogado em dívidas e sem herança, Jacob vai parar no circo dos Irmãos Benzini, onde é contratado pelo proprietário, August (Christoph Waltz, Bastardos Inglórios), como supervisor dos animais.


Jacob tem desavenças com August quanto ao tratamento dos bichos, em especial de Rosie, uma elefanta considerada intreinável e a quem August busca subjugar pela violência. Em meio a isso, o veterinário apaixona-se pela atraente Marlena (Reese Wintherspoon, Johnny & June), a voluntariosa esposa de seu patrão e principal artista do elenco. Marlena e Jacob compartilham o amor pelos animais, e a aproximação tanto idealista quanto amorosa não tarda a despertar a ira de August Rosenbluth.

O roteiro de Richard LaGravenese (As Pontes de Madison, Escritores da Liberdade) demora para se encontrar. A trama avança a passos lentos, chegando a ser cansativa. O destaque dado a personagens e situações secundárias contribui com isso. Para se ter uma ideia, o primeiro beijo de Jacob e Marlena se dá apenas em 1 hora e meia de filme. Apesar da belíssima fotografia e produção de arte, e de certas semelhanças com o memorável Titanic (1997), a falta de momentos românticos entre o casal faz-se a grande decepção da história – no que, convenhamos, seria o seu mote obrigatório.

A ação dos momentos finais é intensa e culmina em um desfecho comovente e satisfatório. O epílogo, ambientado nos dias de hoje e com a participação do ótimo Hal Holbrook (Homens de Honra), complementa o enredo de tal forma que seria indispensável para o seu entendimento pleno, e a emoção e mensagem que transmite. Quase o salva de ser um filme tão chato.

Robert Pattinson começa Água para Elefantes um tanto perdido, falto de carisma e de expressão; evolui conforme a trama avança, e até demonstra alguma química com Wintherspoon. Mesmo assim, sua interpretação não satisfaz, tanto que, do trio protagonista, ele é sem dúvida o mais apagado. Reese Wintherspoon cumpre com o mínimo que se espera dela: desempenha Marlena com competência, embora não faça dela um papel marcante. Christoph Waltz, por sua vez, firma-se como o ponto mais alto do elenco, e brilha na pele do cínico e violento August. Destaque ainda para a participação da elefante Rosie, responsável por vários dos (poucos) bons momentos da película.

Água para Elefantes peca por mal-desenvolver o argumento forte, cheio de potencial de Sara Gruen. A poesia e sensibilidade da história original se mantém aos trancos e barrancos, e grande parte da emotividade se perde em um roteiro confuso e equivocado. Dá até para sair em dúvida se o programa valeu mesmo. 


Assista ao trailer:

(por Felipe Brandão)